Reabsorção cervical externa: um problema silencioso que pode destruir o dente
A reabsorção cervical externa é uma forma particular de reabsorção que começa na superfície externa do dente, habitualmente perto da zona onde a coroa encontra a raiz.
Pode desenvolver-se durante bastante tempo sem dor e, quando finalmente é descoberta, a extensão real pode ser muito maior do que parece numa radiografia convencional.
É uma situação em que o diagnóstico tridimensional pode fazer uma diferença decisiva entre um dente tratável e um caso com prognóstico muito reservado.
Porque é que se chama “cervical”?
A palavra cervical refere-se à região do colo do dente, próxima da gengiva e da junção entre coroa e raiz.
A lesão começa externamente e pode progredir através da dentina em diferentes direções. Em muitos casos, a polpa permanece inicialmente protegida por uma fina camada de dentina, mesmo quando a reabsorção já é extensa.
Por isso, a doença pode avançar sem provocar sintomas pulpares óbvios.
O que pode causar este tipo de reabsorção?
A causa exata nem sempre é identificada.
Alguns fatores têm sido associados a maior risco, incluindo traumatismo dentário, determinados movimentos ortodônticos, procedimentos cirúrgicos e branqueamento interno realizado com técnicas antigas, entre outros.
Ter um fator de risco não significa que a reabsorção vá ocorrer, e muitos pacientes não apresentam uma causa evidente.
Que sinais pode dar?
Muitos casos são descobertos por acaso numa radiografia.
Noutros, pode existir:
- uma pequena alteração de cor rosada ou avermelhada junto à gengiva;
- uma cavidade ou irregularidade cervical difícil de explicar;
- sangramento ao tocar na zona;
- sensibilidade;
- alteração radiográfica detetada num exame de rotina.
A ausência de dor não significa que a lesão seja pequena.
Porque é difícil avaliar apenas com uma radiografia?
Uma radiografia periapical transforma uma estrutura tridimensional numa imagem bidimensional.
A reabsorção pode envolver apenas uma pequena parte da circunferência da raiz ou rodeá-la de forma muito extensa, e ambas podem produzir imagens relativamente semelhantes em determinada projeção.
Por isso, depois de uma avaliação clínica e radiográfica inicial, a tomografia computorizada de feixe cónico (CBCT) pode estar indicada quando a lesão parece tratável e é necessário definir a sua verdadeira extensão.
O que é avaliado na tomografia?
Uma classificação tridimensional moderna considera três componentes muito importantes:
- a altura da lesão ao longo da raiz;
- quanto da circunferência do dente está envolvida;
- a proximidade ao sistema de canais e a probabilidade de envolvimento pulpar.
Esta combinação é muito mais informativa do que dizer simplesmente “reabsorção pequena” ou “grande”.
É também por isso que duas lesões aparentemente semelhantes numa radiografia podem ter prognósticos muito diferentes.
A reabsorção cervical externa é uma infeção do canal?
Não necessariamente.
O processo começa externamente e a polpa pode permanecer vital durante uma parte significativa da evolução.
O tratamento endodôntico só é necessário quando a polpa ou o sistema de canais estão envolvidos, ou quando a estratégia de tratamento exige acesso endodôntico por outras razões.
Tratar os canais automaticamente em todos os casos seria uma abordagem inadequada.
Como é tratada?
O objetivo é interromper o processo reabsortivo, remover o tecido patológico acessível e restaurar o defeito de forma que o dente possa continuar funcional e biologicamente estável.
Dependendo da localização, pode ser possível aceder externamente através da gengiva, utilizar uma abordagem cirúrgica ou combinar técnicas internas e externas.
Os materiais restauradores e biocerâmicos podem ter diferentes papéis conforme a relação da lesão com o canal e os tecidos periodontais.
Todos os casos podem ser tratados?
Não.
Lesões muito extensas, sobretudo quando envolvem grande parte da circunferência e profundidade da raiz, podem destruir demasiada estrutura para que o dente seja restaurado de forma previsível.
O facto de ser tecnicamente possível remover tecido reabsortivo não significa que o dente fique com um prognóstico aceitável.
Por isso, antes de tratar é necessário avaliar simultaneamente Endodontia, Periodontologia e Restaurabilidade.
Porque é importante a experiência no diagnóstico?
A reabsorção cervical externa pode ser confundida com cárie cervical, reabsorção interna ou outras alterações da raiz.
O microscópio operatório pode ajudar na inspeção clínica e durante o tratamento, enquanto a CBCT permite perceber a anatomia tridimensional do defeito.
A combinação de informação é mais importante do que qualquer tecnologia isolada.
Quanto mais cedo, maior pode ser a possibilidade de preservação
Uma lesão pequena e localizada é muito diferente de uma reabsorção que já envolveu grande parte da raiz.
No Instituto Português de Endodontia avaliamos estes casos com exame clínico detalhado e CBCT de alta resolução quando indicado, procurando classificar a lesão e discutir de forma realista o prognóstico e as alternativas.
Se lhe foi diagnosticada uma reabsorção cervical externa e foi recomendada extração, uma segunda opinião especializada pode ajudar a perceber se ainda existe uma opção previsível de preservação.
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