Como é feito um tratamento endodôntico passo a passo
Um tratamento endodôntico é um procedimento de elevada precisão, mas para o paciente pode parecer difícil perceber o que acontece realmente dentro do dente. Conhecer as etapas ajuda a reduzir a ansiedade e a compreender porque cada fase tem uma função específica.
Em linguagem popular ainda se usa muitas vezes a palavra “desvitalização”. É uma expressão reconhecível, mas não é o termo correto. A designação clinicamente adequada é tratamento endodôntico: o objetivo não é simplesmente “tirar o nervo”, mas tratar o sistema de canais radiculares quando a polpa está inflamada de forma irreversível, necrosada ou infetada, preservando o dente natural sempre que isso seja possível e previsível.
Se quiser perceber primeiro o que é um tratamento endodôntico e quando pode ser necessário, esse é o ponto de partida. Aqui mostramos o que acontece, passo a passo.
1. Diagnóstico: perceber se o problema é realmente endodôntico
O tratamento começa antes de tocar no dente.
É necessário perceber a história dos sintomas, observar o dente e os tecidos à sua volta e realizar os testes clínicos adequados. Podem ser necessários testes de sensibilidade pulpar, percussão, palpação, sondagem periodontal e radiografias.
Nem toda a dor dentária significa que seja necessário tratar os canais. Uma sensibilidade ao frio ou ao calor, por exemplo, pode ter diferentes causas. Um diagnóstico correto evita tratamentos desnecessários e permite escolher a solução mais conservadora.
Em situações selecionadas, sobretudo quando a anatomia é complexa ou existe uma dúvida que a radiografia convencional não resolve, pode estar indicada uma tomografia computorizada de feixe cónico (CBCT) de campo reduzido.
2. Anestesia local
Depois de confirmado o diagnóstico, o dente é anestesiado.
O objetivo é realizar o procedimento com conforto. Mesmo dentes muito inflamados podem apresentar maior dificuldade anestésica, mas existem técnicas adicionais que permitem reforçar o efeito quando necessário.
A ideia de que um tratamento endodôntico tem obrigatoriamente de doer pertence sobretudo ao passado. A Endodontia moderna dispõe de anestésicos, técnicas e protocolos que tornam o tratamento muito mais confortável. Pode saber mais no artigo “Dói fazer um tratamento endodôntico? Mitos e verdades”.
3. Isolamento do dente
O dente é isolado com um dique de borracha, criando um campo de trabalho separado da saliva e das bactérias da boca.
Este passo é fundamental. O tratamento endodôntico pretende reduzir ao máximo a contaminação do sistema de canais, por isso faz sentido trabalhar num ambiente limpo e controlado.
O isolamento também protege o paciente durante a utilização de soluções de irrigação e pequenos instrumentos.
4. Acesso ao interior do dente
É criada uma pequena abertura através da superfície do dente para chegar à câmara pulpar e localizar a entrada dos canais radiculares.
Esta fase exige conhecimento anatómico e precisão. O número, posição e forma dos canais variam muito entre dentes e entre pessoas.
No Instituto Português de Endodontia, o microscópio operatório é utilizado para aumentar a magnificação e a iluminação, ajudando a identificar detalhes anatómicos que podem ser difíceis de observar a olho nu.
5. Determinação do comprimento dos canais
Depois de localizar os canais, é necessário determinar até onde devem ser tratados.
Para isso utilizam-se localizadores apicais eletrónicos, complementados por controlo radiográfico quando indicado. Esta informação permite trabalhar com maior precisão ao longo da raiz e reduzir o risco de instrumentar para além do necessário.
6. Instrumentação e desinfeção
Esta é uma das fases centrais do tratamento.
Os canais são preparados com instrumentos muito finos, manuais e mecanizados, enquanto são irrigados abundantemente com soluções desinfetantes.
A instrumentação cria espaço e remove parte do conteúdo contaminado, mas não consegue tocar em todas as irregularidades do sistema de canais. A irrigação é, por isso, essencial para alcançar zonas onde os instrumentos não chegam.
O sistema de canais não é um tubo simples. Pode ter ramificações, istmos, canais laterais e outras irregularidades microscópicas. Por isso, o tratamento combina preparação mecânica, irrigação química e, quando indicado, técnicas de ativação das soluções.
7. Obturação dos canais
Depois de os canais estarem adequadamente preparados, desinfetados e secos, são preenchidos com materiais próprios para Endodontia.
Esta etapa chama-se obturação. O objetivo é preencher o espaço que anteriormente continha a polpa e reduzir a possibilidade de nova contaminação.
Existem diferentes materiais e técnicas. A escolha depende da anatomia, do caso clínico e da estratégia do médico dentista.
8. Selamento e restauração do dente
O tratamento dos canais termina, mas o tratamento do dente ainda não está necessariamente concluído.
É fundamental que a parte coronária fique bem selada e que o dente seja restaurado de forma adequada. Um dente com grande perda de estrutura pode necessitar de uma restauração mais complexa ou de uma coroa, dependendo da quantidade de tecido remanescente e das forças a que está sujeito.
A longevidade do resultado depende da qualidade do tratamento endodôntico, mas também da qualidade e do timing da restauração definitiva.
9. Controlo após o tratamento
Nos dias seguintes pode existir alguma sensibilidade, sobretudo ao mastigar. Na maioria dos casos é temporária.
No artigo “O que esperar depois de um tratamento endodôntico?” explicamos em detalhe os cuidados pós-operatórios e os sinais que justificam contacto com o médico dentista.
Quando existia uma lesão junto à raiz, a cicatrização do osso demora meses. Por isso, alguns casos precisam de controlo clínico e radiográfico para confirmar que os tecidos estão a recuperar.
Todos os tratamentos endodônticos são iguais?
Não.
Um incisivo com um único canal amplo é muito diferente de um molar com vários canais estreitos, curvos ou calcificados. Tratamentos anteriores, coroas, espigões, instrumentos separados, reabsorções, perfurações e anatomias incomuns podem aumentar significativamente a dificuldade.
É nestas situações que a experiência específica de um endodontista, associada a magnificação e tecnologia adequada, pode ser particularmente importante.
O objetivo final é simples: eliminar doença e preservar o dente
Apesar de envolver várias etapas técnicas, o propósito do tratamento endodôntico é muito claro: controlar a inflamação ou infeção no interior do dente, permitir a cicatrização dos tecidos à sua volta e manter o dente natural em função.
No Instituto Português de Endodontia, cada tratamento começa pelo diagnóstico e pelo planeamento individual do caso. A tecnologia é utilizada quando acrescenta informação ou precisão, mas é sempre o raciocínio clínico que orienta a decisão.
Se lhe recomendaram um tratamento endodôntico e pretende perceber melhor o diagnóstico, a dificuldade do caso ou as alternativas disponíveis, uma avaliação especializada pode ajudá-lo a tomar uma decisão informada.
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